Deus existe?
Tomás de Aquino e Baruch Spinoza
I. A Questão que Não Envelhece
Há perguntas que o tempo não dissolve, que a mudança das circunstâncias não torna obsoletas e que o avanço da técnica, por mais vertiginoso que seja, não tem autoridade para responder nem poder para silenciar. Entre elas, nenhuma é mais antiga, mais urgente na sua profundidade ou mais reveladora da constituição humana do que esta: Deus existe? Ela não é uma questão entre outras, arquivável ao lado dos problemas que a ciência soluciona e supera à medida que os instrumentos se aperfeiçoam; é, antes, a questão que interroga o próprio interrogador, que devolve ao ser humano a perplexidade de si mesmo como ser que pergunta pelo fundamento de tudo — inclusive pelo fundamento de si próprio.
Há nas civilizações que a esqueceram ou a suprimiram um sintoma de decadência que não engana: quando um povo ou uma época perde a capacidade de se perguntar pelo absoluto com seriedade, é porque perdeu também a capacidade de se perguntar pelo sentido. E a perda do sentido, como a história registra com uma regularidade que deveria ensinar mais do que ensina, não conduz à liberdade prometida pelos seus arautos, mas a formas de servidão que se tornam tanto mais opressivas quanto menos são reconhecidas como tais. A modernidade, que julgou ter liquidado a questão de Deus ao declará-la metafísica — como se isso fosse um insulto e não um elogio —, acabou por constatar que a questão retorna, obstinada, sob as formas mais inesperadas: no vazio existencial que a prosperidade material não preenche, na sede de transcendência que os sucedâneos ideológicos e tecnológicos não saciam, no espanto diante da morte que nenhuma anestesia cultural consegue suprimir definitivamente.
Diante dessa questão que não envelhece, a humanidade ora se ajoelha em adoração silenciosa, ora ergue a voz da razão crítica, ora recua no agnosticismo que prefere o conforto da dúvida suspensa ao risco do juízo. Em todos esses gestos, ela revela algo de essencial sobre sua própria natureza: a de um ser que não é autossuficiente, que não se basta a si mesmo, que carrega em sua constituição mais íntima uma abertura para algo que o ultrapassa e que, justamente por ultrapassá-lo, lhe confere dignidade.
Entre os muitos pensadores que enfrentaram essa questão com a seriedade que ela exige, dois se impõem com especial pertinência a esta meditação: Tomás de Aquino, o doutor angélico que no século XIII ergueu uma das arquiteturas especulativas mais imponentes da história do pensamento ocidental; e Baruch Spinoza, o filósofo excomungado de Amsterdã que no século XVII ousou redefinir a própria noção de Deus à luz de uma geometria racional cujo rigor não deixa lugar para concessões sentimentais. O que os une é a gravidade com que trataram a questão. O que os separa é quase tudo o mais.
II. Tomás de Aquino: A Razão como Caminho até o Limiar
Tomás de Aquino (1225-1274) herda de Aristóteles a convicção de que a razão humana é capaz de alcançar verdades de alcance universal mediante a observação ordenada dos efeitos e o rigoroso encadeamento das causas. Mas herda também da tradição cristã, sobretudo de Agostinho, a convicção de que a fé não é o adversário da razão, mas seu horizonte mais alto: o lugar onde a razão não se dissolve nem capitula, mas se cumpre e se pacifica. A síntese tomasiana entre fé e razão não é um compromisso diplomático; é uma afirmação metafísica de primeira grandeza, segundo a qual a verdade revelada e a verdade racional não podem, em última instância, contradizer-se, porque ambas procedem de uma mesma fonte.
Para Tomás, a questão sobre a existência de Deus é, antes de ser uma questão de fé, uma questão de razão. É nesse espírito que Tomás instala suas famosas Cinco Vias na Suma Teológica: argumentos que não valem como demonstrações apodíticas isoladas, mas como convergências racionais que, em conjunto, tornam a existência de Deus não apenas possível, mas necessária como hipótese explicativa da estrutura mais fundamental da realidade.
III. As Cinco Vias: A Razão em Marcha Ascendente
As Cinco Vias são caminhos — viae — e a metáfora não é ociosa. O ponto de partida é sempre o mundo tal como se apresenta à experiência sensível; o destino é sempre aquilo que Tomás identifica com o Deus da tradição cristã.
A primeira via parte do movimento: toda a realidade observável é um teatro de transições. Nada pode reduzir-se a si mesmo da potência ao ato. A regressão ao infinito de motores em série é impossível, pois uma série de causas instrumentais sem uma causa que seja por si mesma motriz é uma série sem eficácia causal real. É preciso postular um Primeiro Motor Imóvel, puro Ato sem resíduo de potência.
A segunda via procede pela causalidade eficiente: as séries de causas eficientes exigem uma Causa Primeira Incausada. A terceira via parte da contingência: deve existir um ser necessário por si mesmo, raiz de tudo o que existe sem ser necessário por si. A quarta via parte dos graus de perfeição: deve existir um ser que seja o máximo do ser, da verdade e da bondade, causa exemplar dessas perfeições nos demais. A quinta via é teleológica: os seres naturais desprovidos de conhecimento tendem consistentemente a fins, o que pressupõe uma inteligência ordenadora. A ordem do cosmos é um texto que exige um autor.
Tomás é suficientemente honesto para saber que a razão humana tem limites constitutivos. Pode demonstrar que Deus existe; não pode, por si só, penetrar na intimidade da natureza divina — território que pertence à revelação como dom gratuito que eleva o intelecto a uma visão que excede sua capacidade natural.
IV. Baruch Spinoza: Deus como Substância que Tudo Contém
Baruch Spinoza (1632-1677) chegou à questão de Deus por uma via radicalmente diferente: não da observação do mundo para concluir em Deus, mas de uma definição de Deus para deduzir, more geometrico, toda a realidade. Sua grande obra, a Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, exprime a convicção de que a realidade é um sistema racional necessário, cujas articulações internas a razão pode percorrer sem deixar resíduos inexplicados.
Para Spinoza, existe uma única substância — realidade que existe por si mesma e se concebe por si mesma. Essa substância única é infinita, eterna, e é aquilo que Spinoza chama de Deus, ou Natureza — Deus sive Natura. Os seres individuais que percebemos não são substâncias distintas, mas modos, modificações da substância única, como as ondas são modos do oceano. Para iluminar essa dupla face do único real, Spinoza distingue Natura naturans — a natureza enquanto força produtiva, idêntica a Deus — e Natura naturata — a totalidade das coisas particulares.
Uma consequência de extrema importância é a negação da providência e da vontade divinas no sentido pessoal. O Deus de Spinoza não delibera, não quer, não ama, não pune — age com necessidade absoluta. Não há aqui cinismo, mas uma forma austera de reverência: o amor intellectualis Dei — a alegria suprema de compreender a necessidade de tudo o que existe como expressão da substância infinita.
V. O Abismo que os Separa
Para Tomás, Deus é transcendente: radicalmente distinto do mundo, embora presente em tudo como causa de ser. É actus purus, Ato puro. É também um ser pessoal: dotado de intelecto e vontade no modo mais eminente. A criação é um ato livre — Deus poderia não ter criado.
Para Spinoza, Deus e o mundo são a mesma substância contemplada sob atributos diferentes. Não há transcendência no sentido tomasiano; há imanência necessária. O mundo não foi criado por um ato de vontade livre: ele flui da natureza de Deus com a mesma necessidade com que as propriedades do triângulo fluem da sua definição. A questão da personalidade divina é decisiva: Tomás pode dizer que Deus ama, porque o amor é uma perfeição. Spinoza não pode, porque o amor pressupõe afeto — ser afetado por algo exterior —, o que contradiz a perfeição absoluta da substância spinozana.
VI. O que os Une: A Exigência de Integridade Intelectual
Apesar do abismo que os separa, Tomás e Spinoza convergem num ponto fundamental: a questão sobre Deus exige integridade intelectual. Não a fé que dispensa o exame, nem o ceticismo que se instala no conforto da dúvida suspensa. Exige a disposição de levar o pensamento até onde ele pode ir, sem capitular diante da dificuldade, sem substituir o argumento pela emoção.
Tomás de Aquino oferece uma ponte entre a fé e a razão que não sacrifica nenhuma das duas. Spinoza oferece uma chamada à reverência racional pelo universo — um espanto intelectual diante da necessidade e da perfeição do real que é, a seu modo, uma forma de adoração, ainda que sem altar e sem oração.
VII. A Questão que Permanece
A pergunta Deus existe? não encontra, ao longo desta meditação, uma resposta que a encerre e a archive. Seria desonesto pretender o contrário. Mas encontra algo que talvez valha mais do que uma resposta apressada: a demonstração de que ela é incontornável para qualquer pensamento que se leve a sério, e de que afastá-la com um gesto de impaciência é menos um sinal de maturidade do que um sintoma de empobrecimento.
O que Tomás e Spinoza ensinam, cada um à sua maneira, é que a questão sobre Deus é também uma questão sobre o homem: sobre o que ele é, sobre de onde vem, sobre para onde vai, e sobre se há, no coração do universo, alguma coisa que responda à sede de sentido, à exigência de justiça, ao espanto diante da existência que persiste mesmo quando todas as explicações foram dadas.
Quem enfrenta essa questão com honestidade intelectual já realizou algo que a maior parte das vidas intelectuais contemporâneas parece incapaz de realizar: pensar de verdade, até o fim, sobre o que mais importa. E isso, por si só, é uma forma de dignidade que o tempo não dissolve.
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